Será que o PT fala com os trabalhadores ou sobre os trabalhadores?

Essa provocação — "Será que o PT fala com os trabalhadores ou sobre os trabalhadores?" — é poderosa e toca em algo central na política contemporânea: a distância crescente entre a representação política e a vida real das pessoas que ela diz representar.

Falar com implica escuta, diálogo, escuta ativa, consideração das experiências concretas do chão de fábrica, do mercado informal, das entregas por app, da diarista, do frentista. Já falar sobre tende a ser mais retórico, ideológico, às vezes até paternalista — como se se soubesse o que é melhor para o povo, mesmo sem estar mais ali, vivendo o mesmo.

No caso específico da proposta do PT de instituir a “redução” da jornada de trabalho para o regime 6x1 (seis dias de trabalho e um de descanso) — e até mesmo a proposta da deputada Erika Hilton de adotar o 4x3 — a ideia soa socialmente justa à primeira vista. Afinal, busca preservar o descanso semanal, que é uma bandeira histórica das lutas trabalhistas. Mas a realidade brasileira atual é bem mais complexa.

Propor essa redução sem mexer nos salários dos trabalhadores não tem aplicabilidade real. É uma ilusão tentar copiar o que funciona em países ricos. E sejamos francos: você acha mesmo que o trabalhador vai descansar nesses dias livres? Não. Ele vai buscar outras formas de complementar a renda, porque o salário já não dá conta das contas.

Muitas empresas, especialmente pequenas e médias, estão estranguladas por altos encargos, baixa produtividade, informalidade galopante e competição com plataformas que burlam a CLT. Em setores como comércio, serviços, logística ou saúde, a redução da jornada para além do 6x1 não é facilmente exequível sem aumentar o custo do trabalho — o que, num país com mais de 30 milhões de pessoas na informalidade, pode até piorar o quadro.

Então sim: essa pauta tem apelo no palanque ou nas manchetes de jornais, onde o discurso conecta com valores históricos e com a imagem do PT como defensor dos direitos dos trabalhadores. Mas na situação, onde o governo precisa negociar com empresários, enfrentar a rigidez fiscal e manter algum nível de competitividade, a proposta se choca com a realidade.

Essa distância entre o que se promete e o que se pode fazer tem desgastado a imagem do PT entre parte da classe trabalhadora que antes o apoiava com fervor. Muitos trabalhadores hoje se sentem mais identificados com discursos de “mérito”, “autonomia” ou até “ordem” — ainda que estes nem sempre defendam seus interesses de forma prática.

Ou seja: a frase nos convida a refletir se o PT ainda é o partido da classe trabalhadora, ou se se transformou no partido do discurso sobre ela. Talvez precise reconectar mais diretamente com a base — não só através de pautas ideológicas, mas escutando a dura realidade das ruas, das quebradas, dos mercados informais e das novas formas de trabalho.

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Essa ausência do Lula nos atos públicos de 1º de maio — uma data historicamente simbólica para os trabalhadores e sempre associada ao protagonismo do PT — é, de fato, muito reveladora. Especialmente vindo de um presidente que sempre construiu sua imagem na rua, no palanque, ao lado do povo. A justificativa informal de que ele não foi “por medo de não ter público” escancara um desconforto mais profundo: o medo de encarar uma base que não é mais a mesma.

Há um esvaziamento perceptível da adesão espontânea da classe trabalhadora ao PT, e isso pode ter várias causas:

  1. Mudança no perfil da classe trabalhadora: os operários de chão de fábrica — base histórica do PT nos anos 1980 e 1990 — hoje representam uma fatia muito menor da população. Em seu lugar, cresceu o setor de serviços precarizados, o trabalho por aplicativo, os informais, os autônomos, muitos dos quais não se sentem mais representados por sindicatos ou partidos de esquerda tradicional.

  2. Desconfiança com o discurso político: depois de anos de crises econômicas, escândalos, alianças contraditórias e um retorno ao poder via amplo arco de coalizão, parte da população vê o PT como mais um partido do sistema — não como a alternativa de transformação.

  3. A presença da direita nas ruas: o bolsonarismo ocupou com eficiência a rua, os símbolos nacionais, as redes sociais e o discurso do "trabalhador honesto contra o sistema". Isso esvaziou o PT de parte de sua narrativa popular e o colocou num lugar mais institucional do que insurgente.

  4. Lula como líder institucional, não mais insurgente: agora no poder, ele parece atuar mais como um conciliador entre interesses do que como o líder sindical do passado. E talvez isso, politicamente, seja o que se exige de um presidente. Mas é um papel muito diferente do Lula das greves do ABC — aquele que incendiava as multidões.

Sua ausência no 1º de maio marca um momento de virada simbólica: o partido do trabalhador pode estar perdendo o trabalhador, ao menos em sua forma tradicional de engajamento. E o medo de enfrentar o vazio é um sinal claro de que a comunicação entre liderança e base está fragilizada.

Isso casa perfeitamente com o que comentamos antes: o risco de falar sobre o povo em vez de falar com o povo. Se Lula já não se sente seguro de ir à rua, é porque sabe que o eco da sua voz ali talvez não seja mais garantido.

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